Presos entre o ontem e o amanhã: onde está a nossa vida?

Frequentemente, na prática clínica, observamos como as pessoas se perdem em tentativas de reescrever o que já aconteceu. Existe uma fantasia, por vezes dolorosa, de que poderíamos ter criado um passado melhor, ou a crença de que, se pudéssemos mudar as ações de pais, irmãos ou companheiros, o nosso presente seria menos difícil.
No entanto, aceitar que não existe um "refazer" é um passo fundamental. Enquanto tentamos consertar o passado, permanecemos empacados, incapazes de avançar.
Outro hábito frequente é o de buscar “culpados” por nossa vida hoje ser como é.
Responsabilizamos pais, irmãos, empregos, companheiro, etc e ficamos num lugar passivo, de “vítimas” dos outros.
Do mesmo modo, enquanto nos colocamos como vítimas, permanecemos sem poder de ação, incapazes de atuar no presente.
Há ainda um outro lado dessa mesma moeda que raramente discutimos: a nossa relação com o futuro. Frequentemente, pensamos que o futuro é algo que acontecerá "mais tarde", quando, na realidade, estamos criando-o em nossas mentes todos os dias. Quando o nosso presente desmorona, o futuro que associamos a ele tende a colapsar junto.
O grande perigo está em viver o presente apenas como um lugar de reparação do passado ou de controle do futuro. Essa postura nos paralisa em um lamento perpétuo. Falta estarmos de fato presentes ao presente.
A verdadeira mudança exige que tenhamos a coragem de estar presentes. Viver o agora significa, muitas vezes, ter que aceitar a perda das fantasias de futuro que construímos.
Também implica em nos responsabilizarmos por quem somos e pelo que fazemos. É apenas no presente, despido dessas tentativas de controle, que a vida realmente acontece.
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